Imagine uma criança num belo dia de sol à beira de uma praia. Ela olha o mar
com um misto de medo e fascinação, um mosaico de sentimentos forma-se em sua
mente, alguns meramente intuitivos, outros já palpáveis mesmo em sua curta
existência.
Ela corre das ondas sorrindo, cheias de sentimentos antagônicos, corre querendo
ser alcançada foge querendo ser pega ... O mar é o amor, a onda é a
paixão.
A paixão caça, corre atrás, envolve os pés, parece ter te
prendido, mas como é tênue, tem seu refluxo e volta para o mar, relutante em
mostrar que as "algemas" são ilusórias.
Ela provoca, atiça, sempre vem renovada numa nova onda, mas não te envolve por
mais do que um instante, só te toca brevemente e se vai.
O amor é o mar, infinito e desconhecido aos olhos da criança (todos somos
eternamente crianças), ela sabe que precisa se conhecer estar cônscia dos seus
limites para poder enfrentá-lo, só assim poderá sobreviver as suas marés.
A paixão é um desafio efêmero, o amor é o desafio supremo e infinito da
vida.
A paixão é uma deliciosa tarde da infância fugindo de ondas, o amor é uma
viagem para vida inteira, um casamento indissolúvel celebrado por Netuno em
plena Atlântida.
A paixão continua buscando pés em cada praia, indo e voltando eternamente, o
amor segue soberbo, uma esfinge que guarda um segredo, "decifra-me ou
devoro-te", um enigma que temos que desvendar para valer nossa existência,
um trabalho para uma vida...ou várias.
A paixão pensa que prende, o amor liberta.
A paixão tem a duração de uma tarde de ondas, o amor tem a eternidade
assegurada numa simples molécula de H2O.
A paixão se dissolve em praias desertas.
Perdendo-se por completo e não deixando lembranças, no máximo fugazes
espumas rapidamente evaporadas pelo sol, o amor é o oceano silencioso na
superfície e revolto nas profundezas, uma mística e irresistível combinação ,
um ímã que atrai irreversivelmente.
A paixão permite fugas, o amor não.
O amor é um labirinto sem saídas possíveis, mas com muitos caminhos a
percorrer.
As paixões duram horas, dias ou estações, o amor é eterno.
A paixão pode até ser a primeira onda de uma torrente de amor que vai nos
inundar e tomar por completo, um delicioso e consciente afogamento, mas isso é
raro, em geral as ondas são descartes de energia do amor , mera manifestação de
uma presença avassaladora que por vezes precisamos mostrar que ainda vive a
despeito da calmaria de sua superfície.
Paixões ? Viveremos inúmeras, incontáveis e esquecíveis.
Amores ? Não, apenas um , mas com muitas trocas de objeto até o encontro de
nossa outra metade.